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Contramola
Palavras, Palavrinhas e Palavrões
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Demorei demais. O onze de Setembro já está longe e ao mesmo tempo perto (o outro, é claro). Mas o que
importa é o retorno. Neste tempo todo, pensei em várias coisas para escrever mas não escrevi nada. Mas
chegou a hora. Vamos ao trabalho.
Minha filha leu um livro chamado 'Palavras, Palavrinhas e Palavrões' de Maria Clara Machado do
qual copiei o título da coluna. Neste livro, a personagem principal não consegue entender o conceito
de palavrão, para ela, palavras grandes. Agarro-me a este gancho para tocar em um assunto que,
para mim, é muito importante: a qualidade do que vemos e ouvimos. Música, Rádio e TV.
O espaço aqui não é para grandes teses e nem tenho esta pretensão. Mas, como já disse Itamar
Assumpção, "Eu vou falar e pronto"!
Atualmente, a programação rádio-televisa que é voltada para jovens segue praticamente o mesmo estilo,
seja qual for o meio ou veículo de comunicação. É um festival de baboseiras. Chega-se a um ponto em
que não sabemos se estamos assintindo à MTV, Band ou ouvindo a 89 FM. As
figurinhas soam tão repetidas como aquelas dos álbuns de infância que nunca conseguimos completar. Mas
aquelas eu conseguia escolher e decidir quais comprar. As dos meios de comunicação, não. Suas ondas
invadem o ar e penetram na antena de minha casa. Só me resta o botão 'Liga e Desliga'.
Em algum momento de um passado não muito distante, os meios de comunicação começaram a investir em
programas repletos de apresentadores que enchem a boca para falar palavrões. Parece que os impropérios
são mesmo palavras grandes, que ocupam muito espaço. A juventude parece gostar. E, antes que você
pare de ler, achando que sou reacionário e conservador, preciso esclarecer algo. Não quero censura nem
falsos moralismos.
Palavrões podem, e devem, ser ditos. Mas dentro de um contexto que o justifique. É mais fácil, e
empobrecedor para nossa língua, chamar alguém de filho da puta do que explicar claramente quais são as
posições políticas e sociais desta pessoa. O que ela representa, de fato, dentro de nossa sociedade.
A questão é, para mim, de ordem cultural. A que tipo de pessoas estes programas se dirigem? Que outras
informações estas pessoas, invadidas em seu lar, recebem? E não é apenas o linguajar, mas também as
atitudes e comportamentos. Há uma banalização da violência em nome da diversão. Brincadeiras estúpidas
e de gosto duvidoso enchem nossos olhos e ouvidos.
O pior é que mions, hermes, renatos, klébers, malandros e cassetas tornam-se referência para muitas
pessoas, que deixam de lado faustos, sílvios e gugus em busca de algo 'melhor'. Troca maquiada e
inútil. Ninguém mais quer 'pensar'. Seriedade? Para quê? Vende-se a diversão pela diversão. Sem
compromisso com nada que possa estar ligado ao mundo real. Falar de coisas sérias parece caretice, de
quem é incapaz de se divertir.
E a mediocridade não se limita apenas à TV. Nossas principais rádios são ruins há muito tempo. E a
nossa música também não está lá essas coisas. Com a acomodação da geração da década de 60, não temos
poetas dispostos a questionar o 'Status Quo' ou o 'Brazilian Way of Life'. Como disse Cazuza,
'E aquele garoto que ia mudar o mundo / Agora assiste a tudo, em cima do muro'. Acomodação e
conformismo são a tônica.
Não quero artistas panfletários. Mas não posso aceitá-los como são hoje, na sua maioria. Deve haver um
comprometimento da parte deles em realmente levar alguma informação além do mundinho de vilas
madalenas e barras. O questionamento deve estar presente em qualquer manifestação artística. Arte não
combina, nem rima, com comodismo. Creio ser possível unir diversão e informação, pois elas não são
excludentes, por mais que marinhos, santos e macedos assim o pensem.
Televisão não é um veículo de educação. Mas não falo sobre educação, até porque não sou catedrático
neste assunto, muito delicado por sinal. Cultura é algo muito maior e abrangente, sem ser mais
importante. Novelas fazem parte de nossa cultura. Podem ser, e isto é controverso, arte. Os programas
de comportamento da eMeTeVê tem (ou tiveram?) boa intenção. Mas já se transformaram, ou sempre foram,
em exibições de rostos e corpos bonitos.
Em um país com a desigualdade social do Brasil - uma das piores do mundo - os artistas devem se
comprometer com algo. Patriotismo sem pieguice. É claro que teatros não são lugares para manifestações
políticas isoladas. Muito menos um show de rock. Mas quando um músico se rebela contra determinados
patrocínios, ou até governos, ele leva consigo uma parte de seus fãs. E assim podemos começar a criar
uma sociedade crítica. Que não aceite apenas o que lhe empurram goela abaixo. Nem do Establishment,
nem de seu ídolo.
De nada adianta hebes, ratos e adrianes reclamarem de governantes se eles próprios acabam, de certa
maneira, contribuindo para que tudo permaneça do mesmo jeito. Ninguém quer mudança, pois isso implica
em correr riscos. Risco de perder audiência, salário milionário e carro do ano. Vamos atrás da
Qualidade que junto com ela vêm ibopes, dinheiros e casas. Mas também chegam criticidade, participação
e produção cultural.
Para finalizar, quero descobrir nos artistas atuais, a mesma qualidade que vi na turma que hoje tem 50,
60 anos. Não somos marionetes nas mãos de inescrupulosos. Somos pessoas de carne, osso e cérebro.
Podemos decidir, escolher e opinar. Abramos nossas bocas para falar. Vamos enchê-las, mas de palavras
grandes, enormes, mesmo que com apenas duas letras. Chega de silêncio, pois "paz sem voz não é Paz, é
Medo"!
Em tempo: Revisite alguns clássicos do Rock e perceba o quanto eles criaram com recursos às vezes
escassos.
'E no centro da própria engrenagem
Inventa a contramola que resiste.'
(João Apolinário e João Ricardo)
Henrique Martins
As opiniões aqui contidas representam apenas a posição do seu autor e não necessariamente da Radar Magazine.
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