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Contramola
Futebol, Fórmula 1, Profissionalismo e...Música
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Muito se falou sobre atitude de Rubens Barrichelo, Michael Schumacher e da Ferrari no Grande Prêmio da Áustria de Fórmula 1. E eu também vou falar. Mas depois de todo mundo, que não sou bobo. Uma coisa é incontestável no episódio: Profissionalismo. Vários especialistas, de várias áreas, argumentaram que Barrichelo foi profissional ao atender uma determinação de seu chefe. E não tenho dúvidas disso. E não creio que ele foi mercenário ao aceitar um contrato com uma cláusula para "obedecer" ordens.
O que é contestável é a postura ética da equipe ao determinar qual de seus pilotos deve ser o vencedor, ignorando que ambos disputam, além do Campeonato de Equipes pela Ferrari, o Campeonato de Pilotos individualmente. A torcida de Barrichelo fez papel de boba. Até eu, que aguardava o final da corrida para vestir, ou não, a minha camisa da Ferrari. Não vesti.
O interessante foi ver renascer uma antiga discussão. Afinal, Fórmula 1 é esporte? Apesar de todo o preparo físico que um piloto de ponta é obrigado a ter, não há uma atividade física ligada diretamente à corrida. Mas a competição é clara. É uma disputa, acirrada, por milésimos de segundos. E atrás de milhões de dólares. Mas achar que por haver tanta grana envolvida, a competição se torna apenas negócio, é ser muito simplista. Inocente, até. Quanto custa o passe do Ronaldinho, do Zidane ou do Owen? As cifras são, no mínimo, na casa de dezenas de milhões de dólares. É puro negócio. E ninguém (ou poucos) questiona se o futebol é ou não esporte.
Todos sabem das grandes maracutaias que envolvem o futebol nacional (e mundial também). Mas a revolta nunca é tão grande. Logo se esquecem dos grandes casos de corrupção. Alguém se lembra que o Milan foi rebaixado à segunda divisão por envolvimento na fabricação de resultados na loteria esportiva italiana? Ou do 1-0-0 do presidente do Corinthians? E todos continuam a torcer, fervorosamente, pelos seus times. Eu não vou deixar de assistir corridas, mas que minha torcida contra a Ferrari vai aumentar, eu não tenho dúvidas.
O ponto principal de toda esta discussão é a dicotomia profissionalismo x ética. Será que estas duas coisas não podem - ou não conseguem - andar juntas? Será tão difícil ganhar dinheiro sem "roubá-lo" de outra pessoa? E ganhá-lo honestamente? E será possível ganhar dinheiro com arte e cultura, sem torná-las meras mercadorias nas mão de vendedores inescrupulosos?
Há muito que somos obrigados a ouvir, na grande mídia, uma avalanche de artistas de qualidade duvidosa (e às vezes até sem qualidade). E suas vendas, normalmente, chegam a patamares muito altos, acima até de grandes artistas nacionais. Se comercialmente esta turma é um sucesso, não podemos falar o mesmo de seus dotes artístico-culturais. Mas eles são o produto que toda gravadora quer. Discos com pouca produção e vendagens altíssimas. Somente um gasto maior com divulgação.
Neste ponto eu gostaria de questionar o porquê de tudo isso. Afinal, nunca entendi o que leva uma gravadora a investir tanto neste tipo de música se ela poderia investir muito menos em artistas mais talentosos e variados. Poderiam diversificar seus catálogos e atingir uma gama muito maior de consumidores. Vender um pouco de muito é melhor que vender muito de pouco. Pelo menos pode ser igual. E, sendo igual, por que não fazê-lo?
Mas tudo gira em torno do lucro. Uma corrida desenfreada por dinheiro. E quanto mais fácil for ganhá-lo, melhor. E estas empresas (de gravação) entendem que qualidade e lucro não fazem parte do mesmo jogo. Para elas é impossível associar dinheiro com cultura. Tudo vira uma grande massa. Que é preparada dentro de uma verdadeira máquina que transforma tudo em um produto comum, asséptico e, principalmente, livre de riscos.
Como a grande maioria das gravadoras são multinacionais (ou internacionais), elas não se interessam em levar a diversidade cultural brasileira à grande massa. Querem mesmo é nos empurrar seus enlatados. E divulgando uma música nacional de baixa qualidade, acabam forçando uma comparação injusta entre "nossa música" e a "de fora". Que fique claro que não sou xenófobo. Adoro rock. Gosto de blues. Mas também quero conhecer rock senegalês, rap francês, aquele grupo do Rio Grande sul, o outro de Goiás e também aquele músico meio sumido do Piauí.
E não tenho acesso a essas coisas, pois falta ética às gravadoras e às rádios. Ou, pelo menos, não concordo com a ética que eles praticam. Para mim, música de trabalho é imoral. Jabaculê idem. Rádio e televisão são concessões públicas. E o governo é o grande responsável, legalmente, em manter nossa cultura. Sem leis xenófobas, mas com seriedade e responsabilidade. Não quero mais ouvir alguém dizer (como já ouvi) que a língua portuguesa vai desaparecer. Isto não seria globalização, e sim submissão dos mais pobres/fracos.
Pluralismo já. Com todo o significado e força que esta palavra carrega. E, de quebra, uma auditoria séria nas empresas de comunicação.
Henrique Martins
As opiniões aqui contidas representam apenas a posição do seu autor e não necessariamente da Radar Magazine.
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