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Contramola
Aposentadoria? Tô Fora!
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Há quarenta anos atrás eles se apresentaram pela primeira vez com o nome de Rolling Stones. E desde lá não pararam de produzir, de trabalhar. Mas que fique claro: sou fã dos Beatles. E resolvi falar dos Stones. Creio que tenho isenção suficiente para tal ato. Não quero comparar ou subestimar. Não tenho motivos para desdenhar destes senhores que teimam em não se aposentar. E, o que é pior, insistem em fazer rock and roll.
Bah! Quanta canalhice! Não, não deles, mas minha! Chega de chamá-los de velhotes, dinossauros. Por mais que a idade possa sugerir uma aposentadoria. Mas quem se contamina pela música não pensa em parar. O verdadeiro músico será, sempre, um músico. Nunca um ex-músico.
E os Stones são desta estirpe. Não se entregam. Deixam os críticos de plantão com seus blá-blá-blás de lado e seguem em frente. E ,aqui, vale uma citação de uma canção de Caetano Veloso: "O Time Magazine quer dizer que os Rolling Stones/
já não cabem no mundo do Time Magazine/Mas eu digo (ele disse)/Que o que já não cabe é o Time Magazine/No mundo dos Rolling Stones Forever Rockin’and Rollin’". E eu acrescento: um basta para os calhordas!
Que crítico ousa questionar a obra de Mozart? Afinal, se ele já se foi, de que adianta criticar. As críticas são mais importantes para quem escreve do que para quem lê. E assim eles seguem tentando enterrar o que está vivo. Rolling Stones são uma entidade muito maior que qualquer veículo de imprensa, com seus críticos "fazedores de opinião".
Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts (os três remanescentes) merecem lugar de destaque na história da humanidade (assim como aqueles quatro de Liverpool). Mick, com sua boca enorme, tinha tudo para não ser o símbolo sexual que é. Richards, maltratado pelas drogas, já deveria estar incapaz de tocar os seus riffs clássicos. Watts, simples e tímido, é um dos melhores bateristas de rock que o jazz já forneceu. E não nos esqueçamos de Ron Wood, Bill Wyman, Mick Taylor e Brian Jones
Velhos roqueiros se afundam na própria sombra, presos a um passado glorioso, que no presente apenas sufoca. Mas os velhos teimosos continuam produzindo um som simples e básico, que parece um energético da moda, nos copos de adolescentes ávidos por energia. Quem consegue produzir uma música que agrade a meninos e senhores, garotas e senhoras? Que sessentão não queria ter o corpo de Jagger? Que jazzista não queria ter o carisma de Charlie?
Os Stones são únicos. Nenhum grupo, com tamanho sucesso, chegou a esta idade. Alguns tentam, como Yes e Pink Floyd, mas perdem a identidade pelo meio do caminho. Outros sucumbem à máquina da vida, como The Who. Com artistas solos é mais fácil, afinal a briga é apenas com o espelho (ou com o médico). Mas um grupo, e com realeza, é um fato histórico. Para um mercado efêmero como o atual, eles são verdadeiros heróis (e eu detesto esta palavra).
Não devemos ficar surpresos ou abismados ou ainda melancólicos. O rock é mais velho que os Stones. Ele é avô a algum tempo. E não deveremos nos assustar quando estes senhores, filhos do rock, netos do blues, comemorarem 50 anos de carreira. Se a vida deixar.
Me vejo daqui a quinze ou vinte anos sentado na varanda de minha chácara ouvindo um álbum dos Stones. Eu, se conseguir, já estarei aposentado, quanto a eles... E neste dia frio de 2002, fica impossível para mim não comparar o nascimento deste quarentão com o meu próprio. Sempre brinquei que 1962 foi uma boa safra. Afinal, além de mim, também nasceu a melhor banda de rock de todos os tempos. Quer dizer, a segunda. Quanto a mim, é apenas uma piada, e nada mais. Mas que fico orgulhoso com essa coincidência, fico.
Henrique Martins
As opiniões aqui contidas representam apenas a posição do seu autor e não necessariamente da Radar Magazine.
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