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Contramola
Coluna

O Bom o Ruim e os Dedos Indomáveis


Domingo à noite. Pela janela de meu quarto, ouço uma música que vem do boteco lá embaixo. Não consigo identificar a canção, apesar de conhecê-la. Será mais alguma coisa do Leonardo? Mas parece espanhol e, realmente, não sei se ele já gravou na língua escolhida pelos brasileiros para invadir os EUA.

Mais alguns minutos de audição e finalmente identifico a canção. É 'Corazon Espinado', de Santana, do platinado álbum 'Supernatural. E mais alguns segundos para perceber que, embora seja a versão original, poderia ser, realmente, a versão do cantor romântico. E no dia seguinte o Sérgio Ueda, aqui da Radar me informou que o cantor romântico havia regravado a canção.

E...eureka! encontrei o gancho que queria. Santana é bom. Leonardo não. Mas, caramba! É a mesma música. E em versões muito semelhantes. A distinção é feita apenas pela crítica especializada (eu?). O povo não está nem aí. Que se danem as classificações de qualidade, estilo, nacionalidade. O que importa é gostar.

E acho este poder popular fantástico. Embora não tenhamos acesso a quase nada da produção musical brasileira em nossas rádios. E quase nada da internacional também. Mas já falei disso. Voltemos às classificações.

É muito comum encontrar na crítica especializada, especialmente na roqueira, elogios a alguns e críticas a outros. Uns são bons e outros ruins. Uns hoje, outros amanhã. Mas os critérios destas divisões estão muito longe do entendimento público.

Há muitos anos que ouçoleio que novos grupos chegaram para iluminar o Rock. E quando eu, mortal, conseguia o LP (sim, sou deste tempo) o grupo já não era mais tudo aquilo. E hoje, do outro lado da questão, tenho de analisar álbuns, shows, grupos e emitir a MINHA opinião. Quanto poder!

Mas quero voltar para o outro lado, ou melhor, quero a contramão - e não contramola. O que faz Gorillaz melhor que Lenine? Strokes melhor que Caetano? Santana? Leonardo?

O Rock é uma música simples. Que há trinta anos não apresenta algo de novo, no aspecto musical. Nada de inovações ou revoluções. As maiores mudanças foram de comportamento. Isto não é, necessariamente, ruim. É, apenas, fato. E não foi apenas o Rock que passou por isso. A MPB também. Quiçá o Jazz, o Mambo, o Tango, o Maracatu e a Salsa.

Mas o Rock acaba privilegiado nesta história. Afinal, Radiohead, The Vines, U2, The Hives e White Stripes são "melhores" que Otto, Marisa Monte, Carlinhos Brown, Chico César e Wilson Sideral. Numa xenomania exposta pela maioria dos críticos de rock.

Como que tomados por "bairrismo", xenófilos enfrentam/afrontam nacionalistas e vice-versa. Gatos brigando por sua sardinha. Sempre com a certeza de que o "meu" é melhor. "Eu" descobri. "Eu" conheço. "Eu" ouço. Logo, "EU" o coloco onde quero. This is power!

Mas não são apenas os brazucas que sofrem com estes ataques. Artistas que resolvem expor suas idéias, além de sua arte, acabam dançando. Afinal, só jornalistas (críticos) podem pensar. Aos músicos resta a ignorância. E nesta seara não se salvam nem os roqueiros. E sobram pauladas para Sting, Midnight Oil e Talking Heads.

Críticos não têm este poder, embora a maioria ache que tenha. Mas dedos sobre teclados são indomáveis. Poucos conseguem conter o ímpeto das mãos em discorrer. Junte-se a isso um meio e um nome e está declarada a guerra. De quem opina contra quem cria. E não vou ficar sobre o muro. Eu opino sobre a criação dos outros, que provavelmente opinarão sobre minha criação, que é uma opinião e então... chega! Vamos pular fora deste círculo infindável.

Acho que comecei a cuspir no prato que como.

Em tempo: Gosto de Beatles, Pink Floyd, Caetano, Carlinhos Brown, Midnight Oil, Peter Gabriel, Clash, e etc., etc. ...

Henrique Martins

As opiniões aqui contidas representam apenas a posição do seu autor e não necessariamente da Radar Magazine.

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