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Contramola
Disco é Cultura?
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O primeiro LP com que tive contato foi o Cosmo's Factory, do Credence Clearwater Revival, de 1970. Não era meu, mas da minha irmã mais velha. Lembro-me que não gostava do disco na época. Hoje, o tenho em CD e acho um dos melhores do rock. Mas o que um moleque de sete anos poderia entender de música? Mas também me lembro, muito bem, que estava escrito na capa: "Disco é Cultura". Coisas do regime militar da época.
Durante a década de 70, acompanhei as aquisições de meus irmãos mais velhos. E todos os discos tinham aquela frase enigmática. Cultura! Qual a necessidade da obrigatoriedade de se afirmar algo que hoje me parece óbvio? Lembro-me até de um compacto (sim, eles existiram no Brasil!) com uns desenhos psicodélicos, uns hippies e algumas frases comuns daquela época, como "É isso aí, bicho!" e, de novo, "Disco é Cultura, Bicho".
Tente procurar nos CDs de hoje esta frase mágica. Pode procurar na contracapa, no CD, dentro do encarte. Nada! Parece que atingimos o estágio que não precisamos informar o que é claro. Todos sabemos que é cultura e, portanto, não precisamos declarar. Mas que nada! O mais provável é que, realmente, disco não é mais cultura.
A julgar pelo preço cobrado por nossas gravadoras, realmente eles perderam o status cultural. Afinal, nenhuma "cultura" pode ser tão cara! Aliás, não pode ser cobrada!
E o ponto principal de tudo isto é, realmente, o dinheiro. Nossos preços são abusivos não apenas na indústria fonográfica. Os livros também são caros. E não me venham com a velha desculpa de impostos altos. Livros são isentos de alguns impostos e utilizam papéis também isentos.
Tudo é caro pois a ganância é muito grande. Empresários querem garantir todo o seu lucro mensal com a venda mínima de um único CD (ou carro, livro, liquidificador, bombom, caneta, etc.). E, no ramo musical, temos a agravante de artistas que recebem verdadeiras fortunas para gravarem seus discos. Mais os milhões gastos em publicidade, divulgação (jabaculê?) e distribuição. E sobra sempre para nós, fãs. Que para a indústria somos apenas consumidores.
Não quero defender nenhuma tese anticapitalista. Pelo contrário. Acredito que todos podem ganhar muito dinheiro com arte. Com cultura. Com música. Com discos. Apenas não acredito nesta teoria vampiresca de nos sugar pelo bolso. Está na hora de colocarmos um basta nisso! E o papel principal é dos artistas. Eles devem exigir, além de uma maior participação nos lucros que geram, o direito de seus fãs terem acesso às obras produzidas por seus ídolos. E isto não significa abrir mão de cachês.
Lembro-me da canção de Milton Nascimento que dizia que 'todo artista tem de estar aonde o povo está'. E eles não estão. Embora façam grandes turnês, não as fazem para a grande maioria de seu público. Afinal, quem pode, no Brasil, pagar sessenta Reais para assistir a um show? E quantos podem pagar cem?
O mundo já não tem tanto dinheiro assim. Se os ricos do mundo (pessoas e países) não abrirem mão de um pouco, logo eles serão pobres. Ou, o que é pior, ricos enclausurados em mundos particulares e perfeitos. E tristes. E cercados pela aridez da pobreza financeira e cultural.
Henrique Martins
As opiniões aqui contidas representam apenas a posição do seu autor e não necessariamente da Radar Magazine.
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