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Da Garagem

Por que adoramos ser Lado-B?


<% If sIdentif = False Then Response.Redirect "http://www.radarmagazine.com.br/radar.asp?pagina=dagaragem&arquivo=cln_dagaragem009.asp" End If %> O CD veio e sobrepujou o vinil. As novas gerações ficam imaginando porque achamos tão legal quando falamos da velha "bolacha" de oito polegadas que rodava sob uma agulha em velocidade de 33 ou 45 RPM e ainda por cima havia o perigo de riscar a trilha destruindo a música para sempre.

O vinil se foi, atualmente só existe em edição limitada para colecionadores, mas o problema do risco que pensávamos que desapareceria continua aí. Quando acontece, parece mais um remix mal feito (tsc, tsc). Até nisso o CD peca (he, he).

Brincadeiras a parte, a verdade é que no momento em que o vinil desapareceu, perdeu-se o sentido de denominar as faixas que ficavam do outro lado do disco de lados-B! Do outro lado? Espantados? Pois é isso mesmo, não cabia mesmo galera nova! Nós, "trintagenários", tínhamos de virar manualmente a bagaça para que tocasse do outro lado! Mas somos uma geração privilegiada (a da casa dos 30) porque pegamos as duas mídias!

Lendo o artigo aqui na Radar Magazine sobre o lançamento dos lados B do Cure, percebi que nós, amantes inveterados de música e roqueiros de plantão, adorávamos mais os lados B do que as músicas que ficavam nos lados-A.

Vou explicar porque...

No lado A dos vinis eram sempre colocadas as músicas mais "comerciais" e "radiofônicas" (isto no conceito das gravadoras e da mídia, eu mesmo nunca entendi isso). No B, ficavam as músicas consideradas "esquisitas", estranhas para o padrão dos engravatados da indústria. Concordo com Robert Smith quando diz que as músicas dos lados B revelam o "verdadeiro" artista escondido. Eu mesmo também ia logo ouvir a faixa que NUNCA tocava na rádio! "Será que eu nasci com algum problema" - pensava eu... "Afinal todo mundo comprou o disco para ouvir o super hit do momento...!" Mas agora percebo que não. Logo entendi que a indústria obrigava o artista a seguir uma linha para que tocasse na rádio e não "ferisse", sei lá como, os ouvidos dos consumidores com algo estranho(?). Senti uma compulsão por ouvir tudo que não concordasse com os mais "velhos", com os "puritanos", com os "donos", com aqueles que queriam te obrigar a ouvir o que "ELES" quisessem... Pura fúria adolescente, dirão alguns, mas é essa fúria que nos levou a ter um ouvido mais apurado e perceber o quanto nos identificávamos com estes artistas que por sua vez sentiam o mesmo que nós.

As músicas dos lados B tinham um padrão diferente dos hits. Elas são contraditórias, desrespeitam conceitos, as letras infringem as leis, falam verdades. Vejam como exemplo a faixa 'I'm Cold' Cure, que na época só foi lançada no lado B da fita K7 de 'Staring At the Sea' (mais lado B que isso, impossível). É uma música com exagero de reverbs e ecos, saindo totalmente do padrão "comportadinho". Pois é, mesmo o Cure sendo alternativo, a mídia sempre tenta enquadrar alguma música do artista no mesmo saco da "música para ser vendida" ou "música de trabalho", coisa de quem é empresário e não está interessado em arte. Porque essas pessoas não vão vender seguro afinal ?!?

Agora somos um novo tipo de órfãos. Órfãos dos lados-B, pois o CD só tem um lado... Onde colocaremos as músicas que "os donos da grana" consideram dispensáveis e nós verdadeiras? Não importa, onde quer que elas estejam, prestem mais atenção nelas e não nos hits, porque fiquem sabendo, a música que NÃO faz sucesso merece uma atenção maior! Nem sempre dá certo, claro, mas vale a pena garimpar e procurar o não óbvio.


Alexandre Halliday é músico e membro do grupo Efeito Garage.
Visite o site da banda em www.efeitogarage.com.br.



Alexandre Halliday

As opiniões aqui contidas representam apenas a posição do seu autor e não necessariamente da Radar Magazine.

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