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Da Garagem
Cuspindo no prato
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Uma recente declaração de Ian McCuloch (Echo and the Bunnymen) despertou minha curiosidade. Segundo um dos membros do grupo de discussão Spirit 80s, que me passou a informação, o vocalista declarou em um evento no Rio de Janeiro (RJ), que odiava os anos 80 e que Robert Smith (Cure) seria um quarentão chorão. Pérolas como essa são constantemente declaradas por diversos artistas, por um motivo ou outro, seja sentimento de que está fora do tempo, por não ter muita exposição na mídia, porque a outra banda é mais querida etc e tal. Colocam-se então em uma posição ingrata diante dos fãs.
No caso de McCuloch - um dos maiores representantes das bandas dos anos 80 no estilo mais forte que houve na época, new wave-gótico pós-punk - isso se torna uma grande cuspida não só no prato, mas em diversos fãs que o tem em alta conta.
Pura síndrome do artista que deseja se "livrar" do estigma de ser visto como aquele que faz ou fazia um som típico "dos anos 80" ou de qualquer outra época. Mas poucos são os que conseguem isso. Os Rolling Stones, por exemplo, são originais dos sixties, quer queiram ou não estão aí até hoje. Claro que se arrastam em músicas insossas e sem nenhuma pretensão de ser diferente, mas já se desligaram da imagem sessentista. Não adianta bater o pézinho e fazer birra. O correto é apenas acompanhar o saudosismo dos fãs e mostrar que tem um trabalho novo com as pitadas do velho e bom som que eles gostavam.
É duro, mas no fim o cara decepciona com esses petardos... Quando vejo isso, só posso lamentar. O correto não é negar os 80 e sim manter-se firme em suas convicções, mostrando que o Rock dos eighties não era apenas uma moda, mas um estilo de vida, uma forma de pensar.
Quando declara que Robert Smith é um quarentão chorão, ele está certo. Mas Smith "É" aquilo. Talvez ele não entenda isso. O vocal do Cure segue em frente, anos e anos com seu descabelado visual, e talvez até seja enterrado daquele jeito, se não cair tudo claro! Então... quem é o chorão afinal? Aquele que faz disso sua arte ou aquele que chora por outro sentimento excuso?
Vendo de fora, aparenta que ele partiu para a ignorância quando percebeu que sua banda não foi a MAIS cotada da época, que era mais under do que a outra (no caso o Cure fez mais sucesso nos eighties), e dispara essas infelicidades contra um movimento inteiro, contra tudo o que ELE mesmo participou/criou. Afinal, os fãs verdadeiros que sobraram têm pelo Echo, Cure, Smiths, até mesmo pelo U2 que andou mudando um pouco o estilo, um verdadeiro respeito, e não creio que fiquem colocando um na frente do outro. São todas ótimas bandas que fazem ótimas músicas.
Um tempo atrás, lembro que McCuloch criticou os irmãos Galagher (Oasis) por tentarem copiar até as declarações dos Beatles quando estes disseram que eram mais famosos que Cristo. Noel (ou Liam, não me lembro ao certo) declarou que sua banda era mais famosa que os Beatles. O que é uma besteira comparar... Beatles é Beatles. Eles foram os primeiros. É como tentar dizer que se é mais famoso que a Mona Lisa, é como se comparar com uma obra de arte. Simplesmente não dá! Concordei com MacCuloch na época, pois ele disse que eram boas as músicas do Oasis, mas era ridículo copiar até as declarações dos quatro originais de Liverpool. Anos depois, o cara faz a mesma coisa, jogando merda no prato que comeu.
A informação é que ele estava chapado! Esperemos que seja só o efeito do álcool mesmo ao declarar isso, como informa o nosso colega do grupo Spirit 80s. Só tem um porém: geralmente ficamos bêbados para criar coragem de falar o que sentimos.
Arrogância é o começo da ruína. Vide os Estados Unidos e sua política o que estão causando ao mundo. Só repulsa.
Uma pena, com músicas tão boas como as dele, difícil acreditar em uma mentalidade tão limitada! Mas, somos todos seres humanos, mais seres do que humanos na verdade. Contudo, fecho com Robert Smith, pois admiro o cara por sua insistência, sua mania de sempre revelar sua visão do mundo, insistentemente... Até o momento que ele declarar qualquer besteira. Porque antes de ser fã de uma banda, sejamos fãs de um estilo, de uma idéia.
Os homens morrem, as idéias ficam.
Alexandre Halliday é músico e membro do grupo Efeito Garage.
Visite o site da banda em
www.efeitogarage.com.br.
Alexandre Halliday
As opiniões aqui contidas representam apenas a posição do seu autor e não necessariamente da Radar Magazine.
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