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DR Rock
O Napster, os camelôs e a pirataria nossa de cada dia
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Longe de mim querer parecer o Hardy, aquela hiena do desenho animado que dizia "Eu sabia que não ia dar
certo…" Ou aquele outro personagem que repetia "Eu te disse, mas eu te disse, porque eu te disse…".
Também não quero dar uma de certinho, mesmo que eu seja, mas apenas propor uma reflexão para aqueles
que ainda não pararam para pensar no problema da pirataria.
Olhem que eu ainda me sinto como sendo um daqueles caras idealistas, que insistem em pensar num mundo
melhor e que prezam a liberdade ao máximo. Parece careta criticar a pirataria (é, talvez seja careta
mesmo…) quando estamos num país de baixa renda, onde as pessoas vivem com um orçamento apertado e
tentam sempre alternativas mais em conta.
O caso é que o maior problema da pirataria é a que ela reforça a cultura de descaso com os direitos
civis dos cidadãos. Explico. Suponha que você, que trabalhou duro o mês inteiro na fábrica, no escritório
ou mesmo como autônomo fosse cheirar o contracheque ou a féria do mês (cheirar, sim, pois até já tive
a nítida impressão de ter visto pessoas salivando ao sentir esse doce aroma) e - surpresa - passaram a
mão na sua grana!!! E aí? Vai ficar bravo ou vai deixar pra lá? Facilitou a sua vida? É justo? Deu
vontade de trabalhar mais para pegarem mais ainda da sua grana da próxima vez? Não, né! Bateu um
emputecimento monstro, não foi? E com razão. O cara que é proprietário dos direitos autorais sente a
mesma coisa, todos os dias…
A questão em pauta é se alguém tem ou não direito à recompensa pelo próprio trabalho.
Eu acho que tem. E não venha com a conversa de que a editora ou a gravadora já tem muita grana porque
o ponto não é esse. O fato é que pessoas trabalharam para que aquela obra fosse produzida e, como eles
também têm de pagar o aluguel, entre outras despesas, elas merecem um prêmio pelo seu trabalho e,
principalmente, pela obra que puseram à disposição da humanidade.
Calma, vamos agora às exceções e aos atenuantes. Em primeiro lugar parte da origem da pirataria é a
relação entre o preço da obra e a renda dos consumidores. Impor um preço impraticável ao público é
implorar pela pirataria. Façamos um paralelo, já que a peça está por aí mesmo (e disseram que está
super-boa), com 'Les Miserables'. No clássico de Victor Hugo, o prefeito é acossado pelo delegado
de polícia porque, num passado distante, roubou um pedaço de pão e foi preso. Piegas, não é? Roubou
pela própria sobrevivência. As pessoas não deveriam roubar para sobreviver, deveriam ter a oportunidade
de sobreviver sem chegar a esses extremos, certo? Mas lembrem-se de que as pessoas que hoje vivem nas
cidades trabalham predominantemente em prestação de serviços, onde se depende de tecnologia para viver.
Imagine exigir de um estudante ou recém-formado em arquitetura que pague cerca de R$ 4.000,00 num
programa para desenho. É impedir que ele possa ganhar o próprio pão honestamente, ou sequer se capacitar
para fazê-lo. Engessar as fotocopiadoras das universidades, imaginando que os estudantes terão como
comprar R$ 750,00 em livros por semestre é uma ilusão infantil. Achar que o mundo vai se sujeitar a
pagar o preço que certos laboratórios desejam receber por remédios críticos para donças como a AIDS,
por exemplo, é o mesmo que pedir pela pecha de chantagista (e podem gastar bilhões em propaganda, os
publicitários brasileiros são ótimos - recomendo - mas não vai adiantar nada) e para que copiem
livremente a fórmula. Com apoio do público e das autoridades.
Acho que já me fiz claro nesse ponto. Creio que a propriedade intelectual é como qualquer outra, e que
deve ser sujeita ao interesse social, ao invés de fazer populações inteiras de reféns. Respeitado isso,
creio que ela deve ser protegida, até porque cada vez mais o produto do nosso trabalho é intelectual.
Na verdade, as maiores riquezas da humanidade são fruto do trabalho intelectual. Mesmo as empresas mais
importantes do mundo sempre existem em torno de conceitos intelectuais, mesmo que trabalhem com produtos
tangíveis.
Continua...
DR Rock
As opiniões aqui contidas representam apenas a posição do seu autor e não necessariamente da Radar Magazine.
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