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DR Rock
Brasília x Seattle
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A gente observa os acontecimentos mundiais daqui dos trópicos e acha que o que acontece por lá é
sempre muito diferente, melhor e mais bacana do que o que acontece aqui. Bom, na verdade a quantidade
enorme de recursos disponíveis no primeiro mundo serve tanto como propulsor do desenvolvimento de
novas tendências como de aglutinador de conteúdo espalhado pelo mundo.
As diversas refilmagens de obras européias, como 'Cidade dos Anjos' (refilmagem de 'Asas do Desejo' de
Wim Wenders) ou de 'A Gaiola das Loucas' (de 'La Cage Aux Foulles', não me lembro de quem , e
com o impagável Ugo Tognazzi) são excelentes exemplos. E eu as interpreto como verdadeiras
homenagens.
Por outro lado, nós também temos os nossos dias de vanguarda. E me parece que o movimento grunge de
Seattle foi uma reedição nos anos 90 de um fenômeno já ocorrido nos anos 70 em Brasília. Provavelmente
um fenômeno que se repete ao redor do mundo.
É importante situar as semelhanças. Seattle, até o advento da Microsoft, que ali mantém uma
grande sede, era uma cidade que vivia às voltas com as antigas madeireiras que haviam explorado as
florestas ao redor, e posteriormente da sede da Boeing, onde se desenvolvem já há muito alguns
dos aviões mais importantes da aviação comercial do planeta. Com um clima não muito atraente (pelo
menos para um brasileiro acostumado com um calorzinho...), desfavorecida para o turismo, e portanto
mais isolada das tendências do momento, os filhos dos técnicos e engenheiros levados à cidade se viam
na absoluta falta do que fazer, além de tocar na garagem. Concordo que é uma explicação simplista, mas
é o que cabe aqui...
O mais interessante é que em Brasília ocorreu mais ou menos a mesma coisa. Os filhos dos funcionários
públicos, civis e militares, levados ao planalto central, eram pessoas meio perdidas numa cidade de
forasteiros. Essa geração de filhos de classe média, com boa base cultural, e numa cidade que não
oferecia, por exemplo, as praias do Rio, acabou por formar a mais fértil geração de músicos
brasileiros desde a Tropicália. Que fez o maior sucesso até o advento do axé (que me parece a
negação da poesia bahiana da geração anterior) e abriu caminho para o Rock do Rio e, principalmente,
para o rock paulista.
Eles fizeram isso com uma identidade própria (ok, os Paralamas do Sucesso já soaram meio
Police, mas isso não governou a obra deles), fruto justamente do relativo isolamento daquele
caldeirão de brasileiros de toda parte. Vale lembrar que eles não seguiram as tendências vigentes do
rock. Embora soassem como algo simples, algumas vezes cru... eles nunca se mostraram como os
susbtitutos nacionais do punk rock anglo-americano. O que eles fizeram é autêntico, mesmo que numa
linguagem estrangeira, o rock. A propósito, não era isso que se dizia da bossa nova? Que era Jazz e
não MPB? Isso é uma antropofagia brasileiríssima.
Para os que não conheceram, recomendo 'Tempo Perdido' da Legião Urbana (na verdade eu recomendo
o primeiro, o segundo, o terceiro e todos os discos...) e 'Vital' dos Paralamas do Sucesso (acho que
'Óculos' ficou datada, nesta era de cirurgia de miopia). Não deixem de conhecer a fase lírica deles,
em especial as letras inspiradíssimas de Herbert Vianna como em 'às vezes te odeio por quase
um segundo / depois te amo mais...' e posteriormente em 'Lanterna dos Afogados'. Para os arqueólogos,
indico os fósseis do Aborto Elétrico, cuja combinação de integrantes pode surpreender incautos.
Plebe Rude, Capital Inicial e outros tantos... fora os contemporâneos de outros estados...
como o Biquíni Cavadão no Rio e aqui em Sampa o IRA!, o Ultraje a Rigor (não
percam, se não conhecem, a incrível 'Nós Vamos Invadir Sua Praia', alusão ao domínio carioca no rock,
com participações especiais de...? Descubram!) e tantos outros.
1 abraço a todos!!!
DR Rock
As opiniões aqui contidas representam apenas a posição do seu autor e não necessariamente da Radar Magazine.
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