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Um Acorde
A salvação se chama Strokes?
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Desde que a canção 'The Modern Age' do Strokes veio ao mundo e foi eleita pelo semanário
britânico New Musical Express como 'Single of the Week', o mundo parece ter sido tomado por um
frenesi há muito não visto na música pop. Antes mesmo de ter seu álbum de estréia pronto, a banda já
arrastava milhares de pessoas para seus shows e as revistas especializadas passaram a lhes dedicar
páginas e páginas. E, sinceramente, depois de ouvir o álbum de estréia 'Is This It', eu me pergunto o
por quê de tanta agitação.
Só para ficar em alguns exemplos: o doo-doo-doo de 'The Modern Age' já foi tão usado no rock and roll
que é de se espantar que possa ser motivo para alçar a canção a uma categoria fenomenal. Enquanto isso,
o riff de 'Soma' nos remete direto ao iê-iê-iê - graaande novidade.
Talvez a recepção exagerada aos Strokes deva ser creditada mais a atual crise do rock, encurralado
entre a mediocridade das bandas atuais e às enormes vendagens de artistas pop. Desde o Nirvana
nada de novo surgiu para balançar as estruturas da música pop. O já quase defunto nu-metal não soube
explorar com eficácia os caminhos que seus precursores - Faith No More e Sepultura - apontaram
e caiu no conto fácil da auto-clonagem. As ditas duas maiores bandas de rock da atualidade, U2 e
R.E.M., lançaram bons discos, mas nada que chegue aos pés do que já fizeram antes. E o metal...
bem, o metal segue com sua crise tão eterna quanto a da economia japonesa.
Órfã, a primeira geração do terceiro milênio viu-se entregue às eternas armações do show business,
sempre prontas para ocuparem estes espaços de entre-safra criativa. E dá-lhe boys e girls bands,
rappers milionários, cantoras pop de voz sofrível e grupos de rock inexpressivos. É óbvio que qualquer
um que conseguisse unir um certo talento musical com apelo pop seria imediatamente catapultado a
"salvador da pátria".
Esse cetro caiu na mão dos Strokes.
Mas, antes que você peça para algum cracker botar abaixo o site, melhor deixar claro que os caras são
bons no que fazem. Seria idiotice dizer o contrário. Os músicos do Strokes são competentes, mas
considerá-los revolucionários, um novo Nirvana, a tal "próxima grande coisa..." Vamos com calma,
gente!
Banda formada pré-cataclismo Bug do ano 2000, a música do Strokes é um rock básico, claramente
inspirado em Velvet Underground e Stooges, com uma levada pop. As guitarras de Nick
Valensi falam alto na maior parte das canções. O baixo de Nikolai Fraiture e a bateria do
competente brasileiro Fabrizio Moretti (que começou a tocar aos cinco anos de idade!) aliados
ao reforço do segundo guitarrista Albert Hammond, formam uma cozinha perfeita - o que não se
via desde a época dos Smiths. A voz de John Casablancas (filho do dono da agência de modelos),
algo entre Lou Reed e Iggy Pop, catalisa a rebeldia juvenil que parece ter recrudescido
neste início de milênio. Casablancas brinca com sua voz, variando-a em diversos momentos, enquanto
suas letras exalam amor adolescente sem ser piegas.
Enfim, o Strokes vale mais pelo que representa para o futuro do rock. Um retorno à garagem, a um rock
básico e sem firulas. De qualquer modo, seu sucesso - ou seu fracasso - abrirá novamente as portas das
gravadoras para diversas bandas jovens, ainda que poucas sinceras, mas de onde pode surgir algo
relamente inovador.
Em tempo: o disco de estréia do Strokes, 'Is This It?', será lançado no Brasil no dia 25/09. A
BMG só não definiu se será com a capa original ou a alternativa que sairá no moralista Estados
Unidos (as duas estão reproduzidas acima).
Por aqui vou ficando,
Cláudio Mayer
As opiniões aqui contidas representam apenas a posição do seu autor e não necessariamente da Radar Magazine.
Comente esse tema com Cláudio Mayer
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