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Um Acorde

Celly Campello, rebelde sem causa


<% If sIdentif = False Then Response.Redirect "http://www.radarmagazine.com.br/radar.asp?pagina=umacorde¶m1=cln_umacorde004.asp" End If %> Ironia do destino ou confirmação da supremacia dos batuques sobre as guitarras, o país do Carnaval perdia, em pleno feriado de folia, a pioneira feminina do rock brasileiro. Enquanto mulheres quase nuas esbaldavam a libido dos lobos televisivos, a voz muda do rock ingênuo se calava para sempre. Celly Campello perdia sua longa batalha contra o câncer de mama.

Chamada por alguns de mãe do rock - Rita Lee ficou para titia mesmo, coitada - Celly deu os primeiros passos tímidos na liberação do rock e, por que não, do feminismo brasileiro. Provocante sem ser ousada, moderna sem deixar de ser recatada, era o símbolo da mulher brasileira de uma era intermediária, pré-feminista, pré-liberalismo, pré-tropicalista.

Ainda que sem o saber, e misturadas às suas doces canções de rock, Celly também entoava uma certa rebeldia. "Tomei muito sol / Mamãe bronqueou / Hoje só quero / A luz do luar / ... / Se o luar é meu amigo / Censurar ninguém se atreve". Em 'Banho de Lua' expressa a angústia do jovem pela repressão materna / paterna da época, a incompreensão dos pais, e que os jovens só encontravam conforto na noite, entre os seus, onde ninguém lhes chamava a atenção por fazerem, usarem, vestirem o que gostavam.

A maioria das letras das canções que Celly gravou trazem açúcar em excesso, atitudes de moça comportada, bobeiras como um estúpido cupido. Mas devemos nos lembrar que ela era uma voz feminina num mundo fortemente masculino até hoje (no Brasil, claro): o rock'n'roll. Ironicamente, o que ela mais desejava era dar curso ao seu caminho de mulher prendada: casar, ter filhos, cuidar da casa. E, para tristeza de muitos fãs, foi o que ela fez quatro anos após se lançar no mercado da música. Deu as costas ao estrelato, casou-se com seu contador e se mudou para Campinas (SP), de onde só saíria duas vezes - uma delas em 1976, embalada pelo sucesso da trilha-sonora da novela global 'Estúpido Cupido'. Mas aí já era outra época, Arnaldo Baptista e Rita Lee já haviam detonado a MPB, Vanusa e Wanderléa já haviam ilustrado as noites solitárias dos adolescentes, e o rock em si jazia sob a opressão da ditadura.

Celly Campello ficará na história da música brasileira como a precursora do b-rock. Se tivéssemos um Hall da Fama, seu lugar estaria garantido na cabeceira da mesa, mesmo com seu rock inofensivo e por vezes inócuo. Uma rebelde sem o saber, sem sê-lo no seu íntimo. Mas o mais triste é ter a certeza de que, no ano que vem, seu nome estará cercado de confetes e purpurinas como tema de alguma escola de samba na passarela do samba - enquanto a guitarra, mais uma vez, se cala.


Cláudio Mayer

As opiniões aqui contidas representam apenas a posição do seu autor e não necessariamente da Radar Magazine.

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